Vigilantes de radiação se espalham pelo mundo após desastre nuclear de Fukushima

Especialistas se dividem entre defender ou suspeitar de iniciativas amadoras

Desde o desastre nuclear na usina japonesa de Fukushima, em março de 2011, diversas pessoas se mobilizaram ao redor do mundo para observar de forma independente as consequências da catástrofe. Como um exército que cresce a cada dia, esses soldados abdicaram de suas vidas para examinar índices de radiação e alterações ambientais em lugares como Estados Unidos, Austrália, Europa, Ásia e até no Brasil.

Sem qualquer remuneração, esses vigilantes anônimos acreditam que o acidente na usina nuclear de Fukushima foi bem mais grave do que admitem as autoridades, e, por isso, assumiram a responsabilidade de monitorar os níveis de radiação no planeta. Com essa missão, eles formaram grupos em redes sociais para trocar resultados, experiências e publicar uma enxurrada de “descobertas”: são vídeos, gráficos, mapas e imagens que denunciam níveis de contaminação perigosos para o ser humano e para o meio ambiente.

Cientista amador tenta desvendar mistério radioativo no RS

Uma dessas vigilantes é a americana Mimi German, massagista terapêutica de 49 anos que vive em Portland, no Estado do Oregon (costa oeste do país). Ela é uma dos mais de 400 membros do Radiation Watch (Observadores da Radiação), grupo que possui representantes nos EUA, Reino Unido, Austrália, Brasil e Canadá.

Assim como seus companheiros, Mimi acredita que a contaminação após o desastre de Fukushima é muito séria e poderá afetar as próximas gerações. Segundo a ativista, suas medições e outros estudos estão provando a gravidade da situação.

— A catástrofe está acontecendo agora mesmo! E pode matar centenas de milhares de pessoas!

Existem diversas iniciativas similares ao Radiation Watch, tais como o Radwatch Dot Info ou Radiation Network. Formados por cientistas, acadêmicos e amadores, esses grupos trocam dados entre si e divulgam ao público em geral com um único objetivo: sensibilizar as autoridades para o que eles temem ser um desastre ambiental em nível global.

Difícil, no entanto, é convencer as autoridades de que estão certos.

Autoridades negam desastre global

Segundo a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e o governo japonês, não há necessidade para um alarde internacional.

A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA), apesar de ter proibido a entrada de diversos produtos do Japão após o desastre de Fukushima — sobretudo os alimentos oriundos das regiões próximas à usina —, alega que essas duas autoridades internacionais são as principais responsáveis por vigiar as anormalidades e possíveis contaminações de grandes proporções.

A agência americana informou ao R7 que em seu território, até o momento, não há qualquer indício significativo de que os efeitos da catástrofe tenham atingido o país.

Ao R7, a ativista não esconde sua indignação. Para ela, as autoridades estão sendo omissas a fim de proteger suas imagens e a de aliados políticos e econômicos de uma comoção pública.

Mesmo assim, é nos EUA onde é possível identificar o maior número de organizações formadas por caçadores da radiação, em especial na costa banhada pelo oceano Pacífico, onde Mimi vive.

Graduada em ciências ambientais e com mestrado em educação, a americana Nan Bhajani Tierra, de 52 anos, pertence a três grupos de vigilantes. Ela também foi motivada a investir na causa nuclear com maior empenho depois do desastre de Fukushima. A ativista não possui residência fixa e viaja com seu carro para várias cidades da costa oeste americana.

— Estou envolvida com o Radiation Network e acompanho os gráficos e tendências sobre radiação desde agosto de 2011. Começamos comprando um medidor Geiger-Muller analógico. Em dezembro do mesmo ano, adquiri um Inspector Alert [modelo mais preciso para monitorar a radiação].

Cada indivíduo que pertence a esses grupos contribui como pode. Alguns oferecem ajuda financeira, outros se dispõem a sair em plena madrugada para fazer as coletas dos dados.

— Alguns medem 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu faço algumas medições de cem minutos cronometrados para observar as tendências no ambiente.

Os dados coletados por esses vigilantes são agrupados, analisados e debatidos em conjunto. Mesmo assim, existem aqueles que trabalham de forma solitária.

— Acreditamos que a “ciência cidadã” é muito importante, principalmente porque os governos não estão monitorando adequadamente a [contaminação por] radiação.

Para cientistas, o melhor é desconfiar

Apesar das “descobertas” feitas pelos vigilantes, os especialistas em radiação e autoridades públicas afirmam que os dados, quando verificados, não são confirmados.

A especialista do laboratório de Dosimetria das Radiações e Física Médica do Departamento de Física Nuclear da USP, Elisabeth Yoshimura, concorda que o cidadão tem um papel muito importante na ciência, mas faz algumas ressalvas em relação à radiação.

— É obvio que a sociedade em qualquer área é um fiscal, tem que ser. A ciência não pode se limitar às universidades, ela é pública. O ruim não é ser amador, que “ama” aquilo que faz. O problema é não tentar se esclarecer de forma técnica o que pode levar a pânico ou alarme onde não há necessidade.

Para o professor britânico Christopher Busby, que já fez parte da Comissão Europeia sobre radiação, as iniciativas como essas são “importantíssimas” para a ciência e para a sociedade. Após Fukushima, ele assumiu um papel de destaque ao tentar alertar as autoridades sobre os riscos de contaminação por radiação.

— Eu aplaudo iniciativas como essa, pois normalmente as pessoas não assumem essa responsabilidade. Eu acho que eles são heróis!

O britânico, que já fez parte do Partido Verde de seu país, está muito preocupado com os efeitos de Fukushima e também acha que as autoridades não estão administrando a catástrofe com a seriedade devida.

— É difícil saber quais serão as consequências de Fukushima, sobretudo no longo prazo, com o acúmulo de materiais radioativos no meio ambiente.

Busby também entende que existem limitações para os amadores, mas não acha que isso seja um verdadeiro empecilho, pois poderia ser resolvido com alguma ajuda dos governos ou universidades.

— Alguém deveria fornecer ajuda para que essas medições melhorem e possam ser utilizadas como base para outros estudos.

Fonte: R7 - publicado em 09/12/2013

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