Marijane Vieira Lisboa*
Quando em junho do ano passado (2025) os EUA atacaram o Irã argumentando que precisavam evitar que o país fosse capaz de fabricar uma bomba nuclear, escrevi um troço que depois não publiquei em lugar nenhum, como faço frequentemente só para desopilar o meu fígado. Mas, agora, novamente, em 28/02/2026, um novo ataque de Israel e EUA, insistindo no mesmo medo me fez reler o que escrevi e, concluindo que não perdeu nada em atualidade, resolvi, como dizem, postar.
Desde que Israel atacou o Irã porque esse estaria perto de construir uma bomba atômica e 1/4 do mundo concordou com essa justificativa para uma agressão a um país soberano, inclusive os EUA, enquanto outro 1/4 discordou, especialmente a Rússia e a China, e a outra metade ficou na sua, olhando os grandões brigarem, passei a achar que a precária Ordem Mundial que estudamos nos cursos de Relações Internacionais e de História Contemporânea terminou de acabar, pois já andava bem periclitante.
As Convenções internacionais sobre guerra não admitem o caso de “guerras preventivas”, ou exemplificando: “porque acho que você vai me atacar, te ataco primeiro”. Foi isso que Israel e os EUA fizeram, contando com o apoio da Alemanha, da OTAN e sei lá de quem mais, enquanto Macron, Celso Amorim, o Secretário-geral da ONU, Guterres e Putin julgaram que esse ataque israelense feria a legislação internacional.
Interessante que Putin não tenha percebido que ele também transgrediu essa mesma legislação quando atacou a Ucrânia, alegando que ela poderia entrar para a OTAN em algum dia da sua vida futura.
Afinal, se a posse de uma bomba atômica pelo Irã pode ameaçar a paz mundial, o que poderá fazer gente de boa índole como Putin, Kim Jong-un, Narendra Modi e o próprio Netanyahu, que já têm bomba atômica? Não vejo ninguém suando frio com isso.
E, aliás: por que Israel pode ter uma bomba atômica, embora faça cara de paisagem quando perguntado a respeito, e o Irã não pode? E por que Merz, primeiro-ministro da Alemanha, acha que uma bomba atômica iraniana seria uma ameaça para o seu país? Pensei que a Alemanha estivesse mais perto da Rússia do que do Oriente Médio. E sequer há terrorismo iraniano na Alemanha! Quando há, é de origem árabe, do Estado Islâmico e remanescentes. Não dá para entender. Dizem que a explicação é a culpa alemã, tardia, pelo Holocausto.
Então, pela primeira vez nesse caso específico, me vejo concordando com a política externa brasileira do Lula 3. Que alívio! Claro que ao julgar ilegal a guerra preventiva de Israel contra o Irã, Lula demorou para fazer o mesmo em relação à agressão russa à Ucrânia há três anos atrás. O que também foi o caso de quase toda a esquerda brasileira por manter ainda um certo fraco em relação à antiga pátria do socialismo. E também me vejo concordando com Macron e com o Putin, o que já não é uma companhia muito boa. E defendendo o Irã, apesar de desejar que algum dia todos aqueles aiatolás e guardas revolucionários sejam justiçados pelas mulheres iranianas e submetidos a torturas indizíveis como ver milhares de cabeleireiras femininas soltas ao vento.
Mas, tentando avaliar o risco real que corremos de uma guerra nuclear, não creio que qualquer país detentor de bombas atômicas possa se decidir, em sã consciência, a detoná-la em um país geograficamente próximo, como é o caso do Irã e Israel, Paquistão e Índia ou Rússia e Ucrânia.
A poeira radioativa do acidente da usina de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, afetou principalmente o país vizinho, Belarus, mas sua radiação se espalhou por toda a Europa central e setentrional, detectada na Suécia e na Alemanha logo em seguida. E até hoje há javalis radioativos na Alemanha, porque gostam de comer cogumelos e trufas e esses são organismos que absorveram muito bem a radiação espalhada por Chernobyl. Ou apenas uma parte, porque acredita-se que a outra parte do Césio-137 presente nesses animais tenha vindo de testes de explosões de bombas nucleares de superfície há muitas décadas atrás.
Então, não imagino Irã ou Israel decidindo detonar uma bomba que cobrirá de radiação seus vizinhos Iraque, Catar, Arábia Saudita, Síria, Líbano, os Emirados do Golfo, Turquia e a si mesmos, pois a distância entre Tel-Aviv e Teerã, por exemplo, é de apenas 1.500 km. Também acho difícil que Paquistão ou Índia detonem reciprocamente suas bombas atômicas e com isso destruam obrigatoriamente a Caxemira, razão das suas sangrentas pendengas.
Já no caso de países geograficamente distantes como Rússia e EUA, Coreia do Norte e EUA, o script seria outro, mas igualmente sem final feliz para qualquer lado. Se o sábio governante de um desses países tomar a iniciativa de lançar uma bomba atômica em direção ao outro, o ponderado governante desse outro terá apenas cinco minutos para descobrir se se trata de um alarme falso, ou, na dúvida, revidar imediatamente lançando a sua própria bomba e correr em seguida para o seu abrigo, destinando milhões dos seus patrícios à morte imediata com o impacto e o calor provocado pela explosão nuclear.
Enquanto isso, lá em cima na superfície terrestre, segundo cálculos da Universidade de Princeton, teriam morrido imediatamente 34 milhões de pessoas nos dois lados, enquanto nos anos seguintes, segundo outra universidade, a Rutgers, mais 5 bilhões de terráqueos morreriam de fome. Sim, a poeira atômica impediria o Sol de chegar a essa infeliz Terra, e sem o Sol, as plantas não germinariam, e não se teria o que comer.
Foi por saber disso que cientistas, militares, políticos e muita gente antenada passou os quase cinquenta anos da Guerra Fria temendo, não que os EUA ou a URSS tomassem a decisão tresloucada de enviar uma bomba atômica para o outro, mas que uma falha de comunicação produzisse a impressão de que um ataque atômico do inimigo estivesse a caminho, forçando o país adversário a reagir imediatamente.
É esse o tema do filme Dr. Fantástico, ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba, de 1964, obra-prima de Stanley Kubrick, com Peter Sellers fazendo os diversos papéis de líder russo, americano, do cientista maluco e do militar louco para iniciar uma guerra atômica.
Parece que por vinte e duas vezes (22!) o mundo correu o risco de acabar desse modo durante a Guerra Fria, por acidentes provocados por falhas humanas ou tecnológicas, como nos conta Zaria Gorviett, da BBC News Brasil, em matéria publicada em 12/03/2022.
Em resumo, a ameaça atômica funcionou apenas enquanto as bombas fabricadas tinham um impacto espacial limitado, como foi o caso de Nagasaki e Hiroshima, e enquanto só os EUA as possuíam. Depois que a URSS fez a sua própria bomba em 1949, o jogo foi zerado e inaugurou-se o período da MAD, em inglês, ou a “Destruição Mutuamente Assegurada”.
Resultado: toda essa atividade nuclear que envolveu muitos cientistas, espiões e bilhões de dólares, rublos, francos, libras e ienes entre outras moedas permitiu o vazamento de como fazer bombas para países como Israel, África do Sul e até a Líbia do Kadhafi, enquanto os russos compartilharam o segredo com a Índia, e a China com o Paquistão.
Foi nesse momento então (um pouco tarde, não?) que se pensou em acabar com essa expansão descontrolada mediante o Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares. Com ele gerou-se essa situação esdrúxula: países que o assinaram e ainda não tinham “a sua bomba atômica”, se comprometiam a não desenvolvê-la. Quem já tinha, deveria se comprometer a reduzir os seus arsenais. Já quem não fosse parte do Tratado, poderia tê-la. E quem decidisse construir a sua, era só sair do Tratado, como fez a Coreia do Norte. Simples assim.
Então, voltando à vaca fria, que no caso é a geografia nuclear: o único e enorme risco de sermos vítimas de uma guerra atômica continua a ser esse, a meu ver: uma informação falsa ocasionada por falha humana ou técnica, que leve o país que acredita estar sendo atacado a reagir prontamente enviando a sua própria bomba e levando o outro a retaliar por sua vez. E aí não vai dar mais tempo de pedir desculpas pelo mal-entendido.
O Irã, se construísse sua bomba atômica, não iria usá-la, por tudo o que já disse lá em cima. Ter bomba atômica hoje é uma coisa simbólica, uma espécie de título de nobreza.
Enfim, a única saída para esse enrosco mundial de milhares de bombas atômicas que podem explodir por causa de alarmes falsos seria jogar no lixo esse TNP e aprovar um novo Tratado pela abolição de todas as armas nucleares de todos os países. Países que não têm e não querem ter armas nucleares poderiam liderar essa campanha, por exemplo Brasil, Alemanha, África do Sul e outros mais. Aliás, há uma organização que batalha por essa proposta: é a ICAN, a Campanha Internacional pela Abolição de Armas Nucleares. Convido todos a se juntarem a ela.
E enquanto isso, é preciso começar a construir uma nova Ordem Mundial que mereça esse nome e nos garanta escapar do Armagedom nuclear. Essa que conhecemos desde o fim da II Guerra Mundial morreu de morte morrida.
Haverá quem me conteste que embora seja absolutamente irracional iniciar uma guerra nuclear, nossos líderes políticos não são racionais, Trump antes de tudo, e qualquer um pode iniciar um conflito sem levar em consideração essas considerações. É verdade. Mas é verdade também que eles não acionarão sozinhos suas bombas e que talvez haja em seu entorno militares que os detenham. Ou talvez não, e dada a quantidade de bombas nucleares e loucos nos governando, uma catástrofe nuclear seja inevitável no futuro. É possível. Nesse caso, Carpe Diem, “aproveite o momento”, disse Horácio.
Mas não abusem de nossa inteligência justificando a matança de crianças, estudantes, civis e familiares de líderes, por pior que esses sejam, nem o exorbitante gasto de dinheiro com guerras e armas em nome de um hipotético perigo nuclear iraniano.
Na verdade, os motivos para a guerra contra o Irã podem ser bem mais prosaicos. Netanyahu precisa de guerras para não ser deposto por corrupção, Trump precisa de uma nova guerra para desviar as atenções do seu envolvimento com o pedófilo Epstein, da inflação e de sua crescente perda de popularidade. Os líderes da UE, apavorados com o abandono da OTAN por Trump, fingem que acreditam no perigo iraniano, enquanto Putin desenterra a Carta da ONU que ele jogou no lixo quando atacou a Ucrânia e diz o que é óbvio: trata-se de uma violação à legislação internacional. Lula dessa vez acerta de primeira. Brilhamos assim, no arqui desafinado “concerto das nações”.
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Marijane Vieira Lisboa Doutora em Ciências Sociais, professora da PUC/SP e membro da AAB.
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