‘A explosão levou radioatividade a grande parte da Europa.
E segue ativa, como eterna ameaça da tecnologia nuclear,
usada para produzir eletricidade. O perigo é global!’
Quarenta anos após o desastre de 26 de abril de 1986, o “Pé de Elefante”, lama de urânio e outros metais radioativos e tóxicos deixada pela explosão do reator 4, segue ativo, junto com outros cemitérios de lixo atômico (veículos, roupas e estruturas contaminadas) que ameaçam por séculos o ambiente e as pessoas.
A contenção da radioatividade segue desafiando a ciência mundial, pois nem mesmo estruturas de engenharia complexas conseguem controlar áreas de perigo extremo, como acontece em Chernobyl. O primeiro sarcófago nuclear, construído após o acidente, não deu conta. O segundo gigantesco “abrigo” de aço, erigido em 2016 para durar 100 anos, não consegue conter a radiação porque, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, teria sido atingido por drones na guerra Rússia-Ucrânia. É real o perigo de contágio ambiental e humano. Na região existem “pontos quentes”, com contaminação letal no solo e em objetos.
O reator explodiu com cerca de 180 toneladas de urânio. Liberou aproximadamente 400 vezes mais radioatividade do que a bomba lançada em Hiroshima. Os átomos, em especial Iodo-131 e Césio-137, alcançaram países da Europa. Estima-se que o local contenha cerca de 80 mil metros cúbicos de resíduos, incluindo o “Pé de Elefante”.
Não existe consenso sobre o número de vítimas. Números oficiais admitem 31 mortes nos primeiros meses após o desastre. Mas cálculos de longo prazo para mortes por câncer e doenças relacionadas à radiação variam de 4.000, segundo estimativa da ONU de 2005, a cerca de 100 mil, conforme o Greenpeace.
Na terra, a indústria nuclear mantém sigilo sobre o lixo total existente no mundo. Os nucleopatas alegam que é difícil obter esse número devido ao tipo de fonte, à classificação variada do lixo, baixa, média ou alta atividade, e à diferença entre combustível irradiado e resíduos finais. Estima-se que nossa Mãe Terra tenha entre 250 mil e quase 1 milhão de toneladas desse lixo, sem contar o que foi despejado no fundo do mar.
O combustível irradiado é de alta atividade, sendo o mais perigoso. O estoque mundial só cresce, com as usinas atômicas produzindo resíduos que seguem perigosos por milhares de anos. A maior parte do lixo de alta atividade é segregada provisoriamente em tonéis de superfície, piscinas de resfriamento ou depósitos secos nas próprias usinas. Não existe repositório final isolando, em escala mundial, todo o lixo existente.
E o problema vai além de Chernobyl. Não há um repositório final seguro. Estados Unidos, Rússia, Japão, nenhum país resolveu isso.
O Japão acumulou cerca de 17 mil toneladas de resíduos de alta atividade.
A Rússia possui cerca de 22 mil toneladas apenas de combustível irradiado, além de resíduos da produção de armas nucleares da era soviética e da reciclagem de materiais.
Os Estados Unidos armazenam cerca de 90 mil toneladas em mais de 100 locais espalhados por 39 estados. A maioria é combustível irradiado. O projeto de um depósito final numa montanha em Nevada não deslancha.
Somente a Finlândia desenvolve o projeto Onkalo, para isolar combustível irradiado por 100 mil anos em uma rocha a 450 metros de profundidade. Tão arrojado quanto polêmico, o projeto sofreu contestação de cientistas e ambientalistas registradas no documentário Ao Infinito (Into Eternity, Dinamarca, 2010), dirigido por Michael Madsen. Entre dúvidas e certezas, está prestes a ser inaugurado.
Entre as centenas de milhares de barris despejados no mar, pesquisadores já descobriram mais de 1.800 barris no nordeste do Atlântico, lançados entre as décadas de 1950 e 1980 por vários países, incluindo Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suíça e Alemanha. O descarte desse lixo no oceano só foi proibido em 1993.
Na Itália, lixo tóxico e nuclear foi jogado no Mar Mediterrâneo, especialmente na costa da Calábria, nas últimas décadas. Há ainda denúncias de descarte desse lixo de origem europeia, incluindo da Itália, na costa da Somália.
A Rússia afundou no Oceano Ártico cerca de 17 mil toneladas de resíduos, incluindo aproximadamente mil objetos com altos níveis de radiação.
O Brasil possui lixo radioativo armazenado, por exemplo, em Abadia de Goiás, rejeitos do caso do Césio-137 em Goiânia, além de materiais na região de São Paulo, toneladas de contaminantes da extinta mina de Caldas (MG) e combustíveis irradiados das duas usinas de Angra dos Reis.
Não seria importante que o ministro das Minas e Energia viesse a público explicar qual será o destino do lixo atômico nacional, já que é tão entusiasta da conclusão de Angra 3 e da expansão da nuclearização pelo Brasil?
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Em memória do professor Célio Bermann, militante socioambiental e ativista da Articulação Antinuclear Brasileira, falecido no dia primeiro de janeiro. Gratidão e lembranças.
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